-mas que pitorescos estes contos seus, não?
- obrigado; são realmente muito belas estas minhas obras…
- não.. queria dizer… tu tens um estilo bastante diferenciado, incomum…
- sou mesmo uma graça, não precisa se intimidar, ouço isto como ouço gorjeios de pássaros de lá.
- não creio que nossa comunicação está bem-sucedida, acho melhor parar. Mas antes gostaria de te perguntar… todos contos teus são sobre amputações mesmo?
- não todos, é claro. Prezo pela inovação! Esse aqui por exemplo é sobre amputação de braço.
- Acho que não compreendi bem…
- “Nada mais poderá ser pego pelos braços meus, pois já não mais os tenho…”… gostou deste trecho?
- Indiferente para mim…
- Indiferente genial, né?
- Pode ser…
O Poeta juntou todos os seus pergaminhos com dificuldade diante de si. Assoprou o fogo da lareira que estalava interrompendo o silêncio sepulcral da noite muda. Com toques leves e precisos, empurrou seus textos ao fogo que logo os consumiu em velocidade voluptuosa que, estranhamente, o fez se excitar.
A senhora que havia lido todos e receado um pouco a nomeação de “perfeitos”, gritou, não deixando o estatalar das lenhas possuir sons:
- NÃÃÃÃO!!! – e as veias saltaram sob a pele fina do pescoço. Percebeu que havia adorado, idolatrado os textos dele, quando se viu chorando copiosamente e vendo sua vida ruir.
Ele, porém, assistira a cena com um leve sorriso cínico no olhar, daqueles de quem já leu o roteiro da vida. Disse, com voz calma, contrastando com os impropérios que a senhora gritava ao ver os pergaminhos servindo de combustível ao fogo do que agora ela considerava inferno:
- Já não havia mais necessidade daqueles montes de palavras existirem, pois agora eles tem fundamento em sua mente e podem sair, a qualquer momento, da boca tua; basta lembrar-te…! Minhas palabras foram apenas expressões de mim e de nada mais há o porquê de existir. Sorria e graceje, esperando, com esperança que as memórias tuas nunca venham a falhar e que sempre tenha um pouco das minhas perfeitas palavras (e um pouco de mim) em teu coração e mente.
Ela soltou os últimos manifestos de choro e limpou a face com uma seda branca. Baixou os olhos e declamou todos os poemas e poesias que havia lido nas últimas três semanas que passou enclausurada naquela sala. Os olhos vieram ao mundo e a senhora observou a paisagem pela janela de grades grossas. Com um gesto rápido, ela se virou ao Poeta que escrevia sobre o mesmo assunto e correu em sua direção.
Ele, que tanto sabia sobre o mundo, não esperou pelo empurrão que a senhorinha projetou logo em seguida, levando o Poeta até a lareira, onde estalou e foi consumido junto com seus poemas.
Virou fumaça, pois não conseguiu evitar o golpe da Senhora. Virou fumaça, por seus membros amputados não conseguirem resistir ao empurram e seus tocos não terem força nenhuma.