“me lave por favor”
um sorriso discreto e imperceptivel, ou ignorado. mas com certeza pela primeira vez que voce viu essa frase escrita em um vidro empoerado de uma brasilia beje e velha voce deu um riso audivel e correu para mostrar a estranha e ate metalinguistica piada para seu amigo.
mas eu conheci um vidro que nao achou graca.
ele durante anos e anos separava dois vagoes de um novo e moderno trem, num pequeno circuito no nosso grande nordeste. ele sempre me contava como se alegrava de ver tantas pessoas, vindas de tantos lugares diferentes, pessoas diferentes que dividiam o mesmo espaco, aquele que ele limitava, mesmo que por apenas algumas horas. ele me falava das coisas que via, coisas boas, coisas ruins, coisas maravilhosas. contava que tinha sorte de ter parado ali, emoldurado por uma porta de cedro.
mas o fato e’ que as coisas nao iam bem. os anos estavam dificeis, e a seca agorava minguava a fraca economia da regiao. a empresa que mantinha a ferrovia estava falindo. o trem ficava cada vez mais vazio, e sua atmosfera ia perdendo a cor.
o tempo se passava, e ele nao recebia a devida atencao. primeiro dias, depois algumas poucas semanas, depois muitas semanas. a sujeira ia o tornando opaco, murcho, sem vida. por varias vezes tentou chamar atencao de quem passava, mas nada conseguiu. um certo dia, porem, uma moca da limpeza robusta viu seu desespero, e se limitou a passar um pano molhado sobre sua superficie. a melhor sensacao de sua vida. ela nao sabia, mas havia o salvado de uma morte iminente.
uma coisa que nao pode ser impedida e’ o tempo. e isso, nao a poeira, foi seu executor. silencioso e devagar, de grao em grao, ia cumulando pequenos pedacos de terra, cobrindo novamente sua extensao. semanas depois, a mesma situacao se repetiu. na beira da morte, no limiar da vida e da existencia, projetou sobre si mesmo uma frase de socorro. sua ultima esperanca. todos agora o viam, e o entendiam, mas nada faziam para o socorrer. “me lave por favor”, ele implorava, e com isso fazia criancas rirem e apontarem para ele o mesmo dedo que poderia o salvar.
queria eu poder estar la.
ele nao aguentou. num ultimo esforco, a preferir um final rapido ao inves de uma lenta e eterna degradacao, se fez em centenas, milhares, milhoes de pedacinhos de vidro tao leve quanto a poeira que o recobria, e se lancou ao vento.